*Alerta: este texto contém spoilers.

O filme “Acampamento Miasma: adolescência, sexo e morte”, dirigido por Jane Schoenbrun, é um terror slasher, mas está longe de ser um terror tradicional. É para quem está disposto a mergulhar em uma obra cheia de metáforas, representatividade LGBTQIAPN+ e, claro: sexo!

Foi lançado recentemente, em agosto de 2026, nos cinemas, ainda não está em nenhuma plataforma de streaming. A história começa com um contexto em que existe uma franquia de filmes slasher chamada Camp Miasma, mas que, ao longo dos anos, ganhou sequências pouco bem-sucedidas e é entregue à jovem cineasta Kris para revitalizar o projeto.

Mais do que uma cineasta respeitada, ela é uma grande fã da franquia e resolve visitar Billy Presley, uma mulher de cerca de 60 anos de idade, foi a protagonista do filme original e mora no local da gravação dos filmes até o presente.

Esse encontro vai muito além de uma troca profissional, Billy abre sua vida e suas dores, a Kris também passa a compartilhar a sua própria intimidade. As trocas, que no início giravam apenas em torno das expectativas para o novo roteiro, se misturam à vida de Kris e aos desafios que ela enfrenta em sua sexualidade.

Billy, uma mulher madura, magnética e muito sedutora conquista Kris, a conduz a explorar as raízes do próprio prazer, muito mais do que uma transa, elas constroem juntas uma narrativa cujo ápice mistura a morte dentro da fantasia com o orgasmo na vida real.

A narrativa do Camp Miasma gira em torno de um assassino, chamado Pequena Morte que mora no fundo de um lago do acampamento. Mas longe de ser um vilão qualquer, na história ele foi morto em decorrência do preconceito e da violência por ser uma pessoa trans, escancarando uma crítica à sensação de inadequação e rejeição da comunidade. 

 

Arco da personagem com a própria sexualidade

Kris, uma garota tímida, retraída, que apesar de ser não monogâmica e vivenciar as próprias relações, revela não se dar bem nas relações sexuais, sem conseguir chegar ao orgasmo com outra pessoa. Por meio das trocas que tem com Billy, ela consegue reconhecer a própria forma de sentir prazer, o próprio fetiche, terminando o filme mais livre, poderosa e dona do próprio prazer.

 

CNC de predadora e presa

Programação - Sesc São Paulo

Apesar da obra deixar de forma subjetiva, o prazer de Kris parece estar ligado ao tesão que sente ao se imaginar dentro do universo do filme, é a forma com que ela consegue se conectar com o prazer e chegar ao orgasmo. Quando ela explica isso, a Billy entende, e enquanto transa com ela, narra uma história, criando uma dinâmica de CNC (sigla que significa “não consentimento consensual”, uma fantasia em que a ausência de consentimento é encenada, mas os limites e o consentimento para a prática são combinados previamente).

Neste cenário, do universo do filme, a Kris seria a presa e a Billy a predadora, uma dinâmica fictícia que a leva ao orgasmo. Uma forma de prazer que parece distante da realidade e tem um toque de comicidade, mas também é essencial para representar diferentes formas de sentir prazer, mostrando o quanto são válidas e que quando há uma parceria aberta a ter esse troca sincera, ela pode embarcar nesta forma de prazer.

 

Mais que um vilão, uma crítica à transfobia

Crítica | Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte

Diferentemente de muitos filmes de terror, neste o assassino carrega uma crítica a transfobia e expectativas de gênero. Conhecido como Pequena Morte, antes de morrer e se tornar o assassino, ele era uma pessoa trans que foi atacada pelos colegas de acampamento e jogado no lago. Depois disso, retorna como uma entidade imortal e vingativa.

 

Morte para analogia ao orgasmo

Acampamento Miasma - Adolescência, Sexo e Morte' é uma carta de amor ao  terror slasher - Rolling Stone Brasil

A morte como analogia ao orgasmo durante a narrativa pode ser associada às experiências da comunidade LGBTQIAPN+, historicamente reprimida e violentada por expressar livremente seus afetos e desejos. O sangue, as mortes e toda a narrativa caminham para a libertação da própria sexualidade e para o empoderamento da personagem.

 

Que você possa assistir, refletir e apreciar esta obra cheia de sexo representado de uma maneira que talvez você nunca tenha visto antes. Até o próximo conteúdo da Exclusiva, com informações sobre prazer que você precisa saber!