O amor que resistiu às privações,

O sexo representado de forma intensa e poética.

Baseado na história real de Elisa e Marcela, o filme de 2019, dirigido por Isabel Coixet conta a história de amor entre duas mulheres que começou em 1880 que resultou no único casamento da Igreja Católica na história.

Tudo começa quando a Marcela ingressa na Escola de Formação para Professores, onde Elisa já tinha se formado e trabalhava. Elas se conhecem e a amizade entre as duas vai além do que era aceito na época, se apaixonam, mas não conseguem vivenciar por conta do pai de Marcela. Ele percebe a situação e a manda para estudar em Madrid.

Já formada, Marcela finalmente reencontra a amada, depois de todo o período distante trocando cartas. Ambas lecionavam em aldeias da Galícia, a partir daí começam a viver juntas de fato. De início não apareciam tanto juntas, mas logo que começam os vizinhos desconfiam.

A situação faz com que encontrem uma solução: Elisa se veste de homem e afirma ser o seu primo Mário (que havia falecido) e usam essa nova identidade para se casarem em uma igreja católica. Assim poderiam ser aceitas e viver juntas sem preconceitos e questionamentos.

Infelizmente, a vizinhança não demora muito para desconfiar e denuncia a união que ficou conhecida como “casamento sem homem”. Elas acabam presas por falsificação de documentos e falsidade ideológica para Elisa, e a Marcela como cúmplice.

A história ainda reserva outros desdobramentos, mas o mistério que ninguém sabe é como ela terminou, o filme deixa em aberto, pois de fato não há registros... Chega de spoilers, confira você mesmo na Netflix.


Representação do sexo entre mulheres

As cenas de sexo foram feitas de forma extremamente sensível, delicada e intensa. Antes delas chegarem dá pra perceber a tensão sexual entre as personagens que cresce até que elas realmente consigam vivenciá-lo.

Não são hipersexualizadas, é possível notar o desejo em cada toque, o sexo pele a pele, feito com calma em cada parte do corpo, olho no olho, beijos e mais... Até mesmo o ato de chupar o dedo das mãos e dos pés, mostrando uma dinâmica marcada pela troca, pela reciprocidade e pela entrega das duas personagens.

Uma cena polêmica é a que tem a presença de um polvo que estava sendo feito provavelmente para comida e acaba no corpo delas. Alguns espectadores interpretam como um símbolo da liberdade, da sensualidade e da conexão com a natureza, embora a diretora não tenha confirmado um significado único para a cena.

Ele é um elemento presente na tradição e culinária da Galícia, onde a história se passa. Pode representar a intimidade, sensualidade feminina, de forma que não remetesse aos códigos masculinos tradicionais. 

Assim como pode estar relacionado ao atual fetiche conhecido como exofilia, desejo sexual por outras formas de vida, alienígenas e até mesmo em forma de tentáculos. Representado em ilustrações eróticas japonesas.

Os polvos ainda podem representar o amor livre, instintivo que foge das amarras da moral opressiva do período, já que aparece em trechos que estão nuas na praia (mas na areia) e depois em uma passagem que estão a sós.

Também diferente do comum, há uma cena em que aparecem adesivos colados no corpo de uma delas que é tirado conforme o sexo se desenrola. Mostrando, mais uma vez, o quanto as cenas foram dirigidas de forma artística e poética.


Livro e viagem inspiraram a autora

Apesar da história delas ser um mistério até os dias de hoje, muito do que se sabe está na biografia “Elisa e Marcela: Amigas e amantes”, escrito pelo Narciso de Gabriel que serviu de inspiração para a diretora Isabel. 

Ela também realizou uma viagem a Galícia que fez com que ela se interessasse pela história delas. Apenas 10 anos depois ela conseguiu encontrar uma equipe que aceitasse tirar o filme do papel, além da ajuda do escritor do livro para produzir o roteiro.


Legalização do casamento mais de 100 anos depois

Uma curiosidade história é que o casamento entre pessoas do mesmo gênero foi liberado na Espanha apenas em 2005. O que mostra o quanto os direitos LGBTQIAPN+ têm sido conquistados há pouquíssimo tempo. Mesmo assim, o casamento delas nunca foi anulado pela Igreja Católica.

No Brasil a legalização é ainda mais recente, aconteceu em 14 de maio de 2013, 123 anos do casamento civil ser instituído no Brasil. Ou seja, passaram todo esse período sem acesso a esse direito para pessoas do mesmo sexo.

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